Eu nasci para esta missão.

A frase ressoava em sua mente, e ela já não sabia se era na voz do pai ou na sua. Depois de dezesseis horas de serviço já não fazia diferença. A cadete Werfer a repetia quase que para se convencer. De tocaia desde o cair da noite, ela precisava que tudo fosse verdade. Que o suspeito realmente existisse. Que ele voltaria à fenda esta noite. Que capturá-lo ao lado de Zine, sem a ajuda do destacamento, sem reforço, os ajudaria a estar mais próximos de se tornarem tenentes. O sargento escutaria um tenente. Talvez até elogiasse.

Mas havia três testemunhas, e três descrições incompatíveis. Duas delas mal conseguiam terminar uma frase quando Zine tomou os depoimentos.

— Segundo a última testemunha, nosso alvo é um homem esguio e muito ágil. Ela relatou que ele veio voando por cima de um prédio de telhas púrpuras, você vê algum que bata com a descrição? — Zine relia os relatórios.

— Não vejo. Nunca houve nenhum prédio de telhas púrpuras por aqui. — Ela parou e pensou um pouco. — O suspeito não era forte e robusto e carregava chocalhos?

— Sim, segundo o relato da primeira testemunha. — Zine bateu três vezes com o lápis na caderneta. — A segunda disse que ele carregava sinos, fazia bastante barulho.

Aurent esfregou as têmporas com os dedos. Nada disso fazia sentido. Mas o fato de três testemunhas terem avistado um criminoso nesta fenda nas últimas noites, mesmo sem as descrições baterem, era mais do que eles tinham tido no último mês. Ela olhou para os pés.

O coturno acolchoado, confortável no começo do dia, agora apertava seus pés como uma denúncia silenciosa das longas horas de serviço. A farda, por outro lado, estava como quando ela a vestira. O cinto permanecia ajustado, cada insígnia milimetricamente posicionada, o tecido rígido ainda tinha os vincos exatamente na vertical. Desconfortável. Imponente. Um lembrete de quem ela deveria ser. Mesmo com os músculos cansados, sua postura permanecia ereta. Bastava imaginar o olhar do pai encontrando um amassado, um ombro caído, um segundo de desleixo, e a coluna se endireitava sozinha. Endireitou a coluna, mais uma vez, enquanto o vento cortava em fluxo constante, roubando o calor de seu corpo.

— Aceita um chá? — A tranquilidade dele às vezes irritava Aurent, mas era bom não estar sozinha ali.

Zine estava à sua esquerda, asas reluziam em uma vibração suave. A garrafa de metal estendida. O recipiente azul espelhando o céu noturno. O vapor escapava da tampa em um filete persistente, herbáceo, sedutor naquela temperatura. Quinze graus de diferença entre a mão dele e o conteúdo. Ânima. Claro que Zine traria Ânima.

Odiava o fato de ele a conhecer tão bem.

A farda dele estava tão impecável quanto a dela, mas o cabelo, preso de maneira displicente, caía ao redor das orelhas pontudas. Ela ergueu os olhos para responder, como sempre precisava para olhá-lo nos olhos. Ele sorria com os olhos antes de sorrir com a boca. Irritante como sempre. Ela aceitou a garrafa.

— Essa já é a sétima fenda. — Serviu um pouco na tampa, o gelado do metal contrastou com o vapor fresco do líquido aromático.

— A terceira só este mês. Eles estão ficando ousados. — Zine assentiu. — Está quente, cuidado. — completou.

— Obrigada. — Assoprou o vapor e bebericou. O sabor agridoce da erva se misturou ao sabor de cobre eletrizado que o ar próximo à fenda deixava na boca.

Sentiu o corpo esquentar imediatamente. A manteria acordada. Ao ver Zine sorrir satisfeito, cortou o silêncio. — Ouvi o Cabo Griz comentando que o Trizérnium está considerando encerrar o destacamento Anti-Rasgo e assumir a frente da investigação.

— Esse Cabo Griz! — riu Zine. — Não acho que seja o caso, eles têm assuntos mais importantes para resolver.

— Eles só estão putos porque dessa vez foi perto da Academia.

Zine não respondeu. Fez uma careta. Abriu a boca, mas o comentário não veio. O vento mudou de direção e Aurent virou-se para onde sete torres deveriam envolver o tetraedro governamental do Eneánon. Por um instante, contou oito.

— Tudo bem, Ent?

— Eu poderia jurar que vi a Torre Invisível, mas não. — Ela não a via. Sentia.